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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

[Re]Morto

As pessoas falam sobre lembranças de vida passada. Dizem que já foram outra pessoa, em outra época, outro corpo, outro nome. Eu nunca tive nada disso. Eu não lembro de quem eu fui.

Eu só lembro de como eu morri.

A primeira vez aconteceu quando eu tinha sete anos. Eu estava deitado na minha cama, acordado, olhando para o teto. Não era sonho. Sonhos têm uma textura diferente. Isso era preciso. De repente, eu não estava mais no meu quarto. Eu estava em um escuro absoluto, não o escuro de olhos fechados, mas um escuro denso, fechado por todos os lados. Meu peito não se movia. Não havia ar entrando ou saindo. Eu senti o que só posso descrever como o último batimento... não ouvi, senti. Depois, silêncio. Um silêncio completo. E, mesmo assim, minha mente ainda estava ali por alguns instantes. Observando.

Anos depois eu li que o cérebro pode permanecer ativo por um curto período após o coração parar de bater. Descargas elétricas finais antes da energia se esgotar. Talvez segundos. Talvez um pouco mais. 
Naquela época eu não sabia disso, mas o que eu senti parecia exatamente isso: um intervalo. Um atraso entre o corpo desistir e a consciência aceitar.

Com o tempo, as mortes mudaram. Eu já senti o calor do meu próprio sangue escorrendo pelo pescoço. Já senti o frio limpo de uma lâmina atravessando carne. Já senti o impacto contra o chão. Já senti água preenchendo meus pulmões, o desespero automático do reflexo respiratório falhando. Cada morte diferente. Cada cenário único. Mas todas idênticas no final.

Existe um segundo que se extende, um ponto específico onde tudo desacelera. O coração para. O corpo falha. Mas a mente permanece. É como um deja vu. Eu estou vivo, atravessando um dia comum, e de repente estou também naquele último segundo de outra existência. Duas camadas sobrepostas. Eu continuo respirando aqui, mas também sinto a ausência absoluta de ar lá. Continuo de pé no presente, mas também sinto o sangue esfriando em outro tempo.

Antes, essas lembranças sempre terminavam na mesma coisa: solidão. Escuro. Imobilidade. Uma sensação esmagadora de estar completamente só, como se eu fosse o último ponto consciente num espaço vazio demais. Era isso que me assustava quando eu era mais novo. A ideia de que, no fim, restava apenas silêncio.

Mas algo mudou.

Nos últimos anos, algumas memórias passaram do ponto do silêncio. Elas não terminam mais no último pensamento. Elas continuam.

Eu desperto depois.

Não sempre. São raras. Breves. Mas estão acontecendo.

Eu sinto o corpo já frio. Imóvel. Sem resposta. E, ainda assim, existe percepção. Não como visão. Não como audição. Como consciência comprimida dentro de algo que já não funciona. E então vem a sensação que eu nunca deveria ter conhecido: pequenos movimentos sobre a pele. Múltiplos. Persistentes. Explorando. As larvas...

Eu nunca as vejo. Mas sinto o deslocamento. Elas rasgando lentamente meu corpo. Não é dor como um vivo sente. É outra coisa. É consciência percebendo que está sendo desfeito. Mais perturbador que uma a sensação física. É perceber que a solidão acabou. A morte não é mais vazia. Há companhia agora. Uma companhia sem intenção, sem maldade, apenas biológica. Elas não sabem que eu ainda estou ali. 

E eu não deveria estar.

São momentos curtos. Segundos que parecem longos demais. Então, finalmente, tudo apaga. Eu retorno ao presente tremendo, com a certeza de que aquilo não foi imaginação.

Eu não tenho medo de morrer. A morte em si já não é desconhecida para mim. O que começou a me assustar é outra coisa. É a possibilidade de que a consciência não termine junto com o corpo. Se o cérebro realmente continua ativo por alguns instantes após o coração parar, quanto tempo é um “instante”? Quem decide o limite? E se esses instantes puderem se expandir? Se a consciência aprender a permanecer nesse intervalo?

As pessoas discutem o que há depois da morte. Céu. Inferno. Nada. Luz. Julgamento. Eu não vi nada disso. Não há túnel luminoso nas minhas lembranças. Não há vozes chamando meu nome. 

Talvez o que chamamos de “depois” não seja um lugar. Talvez seja apenas um processo. Uma desintegração gradual. Um desligamento que nem sempre é imediato. E se esse processo falhar? Se, por alguma razão, algo em mim estiver se recusando a terminar?

Antes, eu lembrava apenas da solidão da morte. Agora eu lembro da decomposição começando. Não é o fim que me assusta. É a possibilidade de não haver fim algum. De que um dia o meu coração pare… e eu continue acordado.